Há dois anos atrás, em 2008, estando em férias em Rosário, Argentina, fiquei tão impressionado com a solução obtida lá para o transporte coletivo, que escrevi uma Carta Aberta aos Vereadores de Porto Alegre, relatando o que vi e o que ouvi, já que fui falar com o Diretor de Transportes da cidade.
Tive um problema com meu computador que me fez perder todos os arquivos, inclusive essa carta; de modo que não posso enviá-la para relembrar. Todavia, certamente, alguns dos senhores deve ter uma cópia, pois, à época, a única reação que recebi, da parte dos vereadores, foi uma carta do Vereador Guilherme Barbosa, informando-me que a guardaria para eventuais consultas, no futuro. Além disto, fui convidado para participar do Conselho de Clientes da STS, ao qual renunciei um ano depois ao constatar que o Conselho Municipal de Idosos havia tomado uma postura de enfrentamento da questão, o que me fez pensar que minha missão havia sido completada. Ledo engano.
A única sugestão que notei ter sido acatada foi a de aumentar o tamanho dos letreiros dos ônibus. Além disto, notei também que foi intensificada a mídia paga para divulgar e louvar o sistema adotado de leitura ótica dos cartões magnéticos, denominados de TRI.
Cheguei hoje de Montevidéu, desfrutando de um período de férias, onde pude experimentar o sistema de transporte coletivo.
Para não me estender muito devo dizer que senti vergonha de ser porto-alegrense, e de participar da população dita mais culta do Brasil.
Resumindo, em tópicos:
1. Os ônibus são mais largos, com amplos corredores internos, portanto, oferecendo mais conforto para os passageiros; não há nenhum tipo de roleta de segurança ou qualquer outro dispositivo que agrida o passageiro;
2. A maioria dos ônibus não tem mais cobrador, sendo que o motorista assume as duas funções, graças a um sistema perfeito de leitura ótica, o qual ainda fornece recibo (ver anexo);
3. Nos ônibus em que há cobrador, este está colocado num nicho entre bancos, no mesmo nível dos demais passageiros, sem aquela agressiva posição por trás de uma roleta de segurança máxima que parece dizer: “Você é um assaltante perigoso em potencial”. É tão ostensiva esta postura que eu acho que deve atentar contra os direitos humanos de um cidadão, presumivelmente ladrão e assaltante;
4. O leitor ótico é muito mais eficaz e muito mais rápido do que o adotado aqui; e ainda fornece recibo!!!!!!
5. A freqüência de veículos entre os horários de pico é a mesma, proporcionando assim maior conforto aos usuários, que não são obrigados a serem transportados aos solavancos em razão da imposição de maior produtividade com menos veículos;
6. A frota é muito mais nova do que a daqui.
Vale registrar que a população de Montevidéu é praticamente a mesma de Porto Alegre. Eu perguntei a alguns motoristas se eles haviam recebido alguma vantagem de salário ao trocarem o sistema e eles me disseram que receberam quase 50% de aumento. Declararam-se satisfeitos. A mesma coisa que aconteceu em Rosário, Argentina.
E, atenção, ambos os municípios são administrados por partidos com inspiração comunista (à francesa) e adotaram uma solução concertada com a iniciativa privada que atendeu ao principal objetivo: servir bem ao passageiro trabalhador, colocando o trabalhador do sistema no mesmo nível daquele e, também, a seu serviço.
Em Porto Alegre o trabalhador no sistema de transporte coletivo age com superioridade sobre o trabalhador-passageiro; este é, em princípio, uma pessoa perigosa que poderá assaltar ou pular a roleta (só pode ser esta a explicação para esta agressividade).
Ao entrar num ônibus em Montevidéu ou Rosário eu sinto vergonha de ser porto-alegrense. Se eu fosse vereador rasgaria meu diploma se não conseguisse resolver isto, se não virasse presunto antes...
Em Porto Alegre o sistema de leitura ótica adotado criou uma dependência do cobrador, justamente para justificar seu emprego.
Quando participei do Conselho de Clientes da STS perguntei ao Superintendente “Quem era o cliente do sistema?” Claro que ele respondeu que era o passageiro. Mas, certamente, o passageiro não é, pois se você o trata como um potencial assaltante não é este o seu cliente.
Era, e é, óbvio que o cliente do sistema de transporte coletivo de Porto Alegre é o Poder Concedente, não o passageiro. Este é um insumo apenas, que serve para consolidar os objetivos de duas corporações: a dos empresários e a dos empregados.
Peço-lhes, senhores Vereadores e senhoras Veradoras, que utilizem o transporte coletivo em Porto Alegre para conhecê-lo melhor. O povo que está pagando-lhes para ter um motorista e um carro à sua disposição é o mesmo que anda de ônibus, o mesmo que os concessionários do serviço, nomeados por vocês, o trata como um assaltante potencial.
Depois de um tempo vão à Rosário e Montevidéu e comparem. Estou certo que sentirão a mesma vergonha que eu senti.
Apelando mais um pouco, prezados senhores e senhoras, uma democracia como a que vivemos deveria representar o exercício do poder como sendo “do povo, pelo povo e para o povo”, mas, infelizmente, não é assim, pois o sistema político brasileiro profissionalizou a política e subverteu o exercício do poder para: “do voto, pelo voto e para o voto”.
Bem, mas na Argentina e no Uruguai temos a mesma situação, portanto, é possível, assim mesmo, achar uma solução que coloque o passageiro no seu devido lugar:
O CLIENTE
José Gabriel Pena de Moraes
Corretor de imóveis
Porto Alegre/RS
